segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Menina II

Continuando a história da menina

Ao lado da velha casa onde a menina morava tinha uma jabuticabeira, que até alguns anos atrás ainda existia e, nos fundos, próximo ao córrego, a menina falava corgo, a velha moita de bananeira, onde se fazia as necessidades fisiológicas, limpava o bumbum com folhas ou palha de milho. Quando se fazia necessidades físicas à noite, no pinico, eram jogadas porcamente no córrego, assim como se fazia os demais moradores, mas também se serviam da água que certamente era contaminada.

A maioria alí era muito pobre. Os homens trabalhavam na roça, as mulheres eram lavadeiras na cidade, ou apanhavam café na época da colheita e, quando havia vendiam frangos e ovos na cidade.

A realidade familiar da menina não era diferente de outras famílias. O pai e os irmãos trabalhavam na roça e a mãe se desdobrava nos afazeres de casa e nas atividades pesadas da lida para ajudar a criar os filhos. As vezes  a mãe tinha apenas um vestido descente e ficava trancada em casa, enquanto a avó da menina o lavava e secava para ela vestir.

Era uma mulher muito bonita, traços finos, delicada, corpo bem feito. Morena de pele muito clara, cabelos lisos, cintura muito fina.

A avó da menina também era muito bonita, alta, magra, usava saia comprida de cordão na cintura e um casaquinho por cima, morena linda de se ver.. A menina não conheceu o avô, segundo a mãe dela contava ele faleceu quando ela tinha apenas três anos de idade. Teria falecido de nó nas tripas, esse era o nome dado para apendicite, ou ainda, segundo outras versões teria sido envenenado com pó de vidro moído. Entrava nas casas de prostituição montado a cavalo, era o terror das prostitutas das época. Dizia sua avó que o cavalo dele saltava como o cavalo do zorro.

O pai da menina era mulato, quase negro, cabelo carapinha, gostava de uma cachacinha, porém era muito honesto e trabalhador.

Aos dezessete anos a mãe dela teve a filha mais velha e a seguir quatro meninos, a menina pela ordem de nascimento, é o sexto filho do casal. e teve a infelicidade de nascer menina. Foi a caçulinha até os quatro anos de idade, mas a mãe dela ainda teve mais duas meninas.

Ao todo eram oito irmãos, o pai, a mãe e a avó. Mas um dos irmãos era seu preferido, aquele que sempre procurava satisfazer suas vontades. Irmão amoroso, zeloso, sempre cuidou muito bem da irmã.
Naquele pedacinho de Brasil, ainda pequenos, todos sabiam o que era os dissabores da vida, mal alimentados, descalços e maltrapilhos.
Naquele tempo as mães e irmãs mais velhas não se preocupavam com as mais novas. Assim, o irmão mais novo da menina é cinco anos mais velho que ela começou a assediá-la sexualmente, Ela tinha apenas cinco anos de idade e isso durou até o dia que o irmão querido que sempre tomava conta dela, deu no moleque uma boa surra e passou a impedir que ele se aproximasse dela. A menina guarda essa mágoa e tristeza até a presente data e chora ao contar o fato.

Voltando aos seus pais. Seu pai gostava de beber e quando ficava tonto causava medo aos filhos, riscava a parede com o punhal enquanto cantava uma estranha canção. Era algo assim: bolie, bolie, boliá, a vida não pode parar. As crianças e a mãe corriam para a moita de bananeira. Ele não registrou os filhos ao nascer, foram apenas batizados. Até a próxima.

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